domingo, 31 de julho de 2011


Que viagem rotineira e comodista é essa coisa cinza que é o cotidiano.....

pega o trem, anda na calçada, senta em banco de cimento, sobe a escada do banco, na fila encosta na porta atento ao caixa eletrônico.

Uma placa desbotadamente cinza diz: Proibido Parar e Estacionar. Em seguida, encontra uma banca de lata e compra um jornal de folhas cinza recicladas com notícias sóbrias e sombrias de óbitos.

Atravessando a rua, contraditórias flores de plástico com o propósito de permanecer ‘eternamente vivas’ sob a tumba cinza de um cemitério.

Na infinita seqüência de automóveis transeuntes, incontáveis carros com ocupantes velhos e ansiosos tem expressão amarguradamente cinza.

O executivo de camisa e gravata cinza diminui a velocidade ao ver o radar em um poste de ferro.


Enfim...


no meu primeiro dia de trabalho, paro em uma guarita de um prédio da Berrini cinzenta e surge um guarda de bigode e uniforme com a cor do lugar. Vou até a recepção feita de granito.

A recepcionista idosa de cabelos grisalhos me pede para olhar em direção a câmera com a intenção de ter minha imagem nos arquivos da segurança.

Com um sorriso cinza de fumante, aponta o elevador.

Aperto o botão redondo e chegando ao meu destino, vejo que a pessoa que decorou o escritório do andar gostava muito desta cor: tapetes, cadeiras, paredes, guarda-corpo, máquina de café expresso, pastas de arquivo, além dos vidros das janelas empoeirados.

Ao final do dia, subo em um ônibus lotado e suspiro ao notar que os assentos duros acinzentados estão todos ocupados.

Então eu me escoro em um trabalhador qualquer com perfume de final do dia, a fim de ao passar por uma lombada alta, não sapatear esquizofrenicamente pelo piso de alumínio do transporte coletivo paulistano.

Algumas horas depois...

puxo aquela cordinha engordurada, às vezes cinza e muitas vezes azul mesmo e desço no ponto afoitamente aguardado o caminho todo.


Ufa! Estou perto de casa, penso.


Mesmo passando por detalhes improvisados e outros intencionalmente colocados na trilha do meu percurso (que agora será diário), ando apressada. Passo pelo portão, subo as escadas, bato na porta que já foi cinza.

Sonolentos, porém falantes, meu pai (de pijama azul) e minha mãe (de camisola rosa) esperam curiosos para me interrogar sobre como foi meu dia.

O meu cachorro late para um afago meu e a Sofia (minha camundongo) morde a grade da gaiolinha vermelha encostada à parede laranja.

Sento descansadamente no sofá dourado olhando a floresta de plantas verdes e amareladas que estão espalhadas pela sala.

Tiro a minha sapatilha roxa que minha irmã diz odiá-la, mas comprou uma igual para ela.

As levo para o quarto do meu irmão (que agora também é meu quarto).

Deitada na minha cama de colcha colorida com figuras de formas geométricas, eu leio uma revista de decoração que contem inúmeros nuances.

Reparo à frente a parede de cor chamativa que eu e meu irmão pintamos juntos em um dia feliz.



Quase que cochilando e tranqüilamente segura em meu mundo de cores sortidas, me sinto aliviada. Vejo que aquilo tudo foi um acesso de estafa ocular pela cor única da cidade de SP, causado por minha falta de inspiração em um dia longo e cansativo. Também por imprudência ao não notar os detalhes impressionantes desta metrópole antropofágica.

Detalhes que somente a sutileza de um olhar artístico ou simplesmente criativo e observador podem absorver.



..para o 'por vir'...



Quando a sublimidade não vem a tona...


o tempo se torna côncavo: demora, passa lento, faz curva,

faz mímica sem mãos, faz sermão.

E se ainda assim se sair bem,

quem tem planos mantém riso em sombra.

Com porta aberta, ouvindo som de luz,

dançando com toda soltura,

alcançando altura de meditação ,

seguindo a vida sem tanta amargura.















... não posso passar uma tarde comigo. É perigoso, fico pensativa e logo ... Eu viro Eu.

Se não faço monólogo, acabo me ferrando!










Daih.... sozinha.. enquanto eu tomava um cappuccino sabor café expresso de máquina com grãos torrados a 585 graus e sem açúcar, perguntei ao paralelepípedo mais próximo a minha mesa se ele achava que na minha vida passada eu era um tacador de fogo e furador de olhos de mendigos, comedor de poodles toy, queimador de senhorinhas usando bituca de cigarro, furador da fila de doação de órgãos (ou coisa parecida) e que por isso estava pagando algumas pendências. Não tive resposta, mas....senti que ele queria me dizer algo. Querrriiiiaaa...eu seeeei! Demorou, porém, respondeu que se eu não fosse mais uma pessoa frustrada, que não precisaria fazer aquelas barbaridades novamente. Ainda revelou que ele era um dos poodles que eu comi. Fiquei constrangida. Sabiaaaa que tinha algo errado: sempre que me sentava ali me sentia ameaçada por ele, mas nunca havia entendido o porquê. Hunf (triste)!Decidi que quando eu voltar lá, só me sentarei na mesa do canto, próxima a janela verde e não perguntarei nada à ela. Nadinha.




Descompasso



A vida não tem fórmula.

Formular passos no compasso dos outros é uma dança sem ritmo.

Espasmos corporal sem sobressaltos de prazer. Nada intuitivo.

Monotonia latente, manejo disritmado.

Sem estímulo.

Isso não me sustenta!

Só aumenta o anseio pelo que ainda não foi encontrado.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Só e Comigo

Quando eu estava em crise notei que a minha família realmente gostavam de mim, pois ficaram ao meu lado durante toda a minha "recuperação".

Já eu me sentia infeliz comigo mesma. Me odiava por completo.



Hoje estou melhor (aos trancos e barrancos), conseguindo me erguer sozinha.
Me sinto mais segura diante de algumas situações que antes me faziam tomar várias doses de Rivotril para dormir dois dias seguidos ou fazer riscos gigantescos na minha perna.

Agora eu gosto mais de mim, porém, parece que só eu gosto de mim.

Completamente rejeitada. Até mesmo pelo meu cachorro companheiro de cama que agora insiste em esquentar os pezinhos da minha mãe ao invés dos meus, todas as noites.

A minha ex-esposa sumiu. O tipo de relacionamento que tenho com ela é daqueles que você se esforça em terminar e até tenta sair com outras pessoas, mas sempre arranja uma desculpa qualquer para dar o 'bolo' na outra e poder ficar com ela.

Fica simples entender quando digo que casadas somos duas bombas de pavis curtos e tendo apenas um casinho somos duas amantes apaixonadas. Adoro!

Casar nãaaaoooo....amar siiimmmm!



Pois é! E agora ela resolveu que não vai me encontrar nunca sem que eu ligue e peça pra ela vir me ver.

Nunnnnca que eu vou dar o braço a torcer!!!! Ora sou leonina!!!! Ninguém me faz ir atrás!!!!!!! Jamais!


Em um pensamento como este de mulher alterada de orgulho ferido eu acabei me fudendo feio.

A ex-esposa virou ex-caso e eu entreguei pra Deus.

Pois então... carente resolvi desenhar ursinhos bonitinhos para entregar a uma amiga de trabalho esperando alguma gratidão, como: " Que fofo Van! Foi você que fez?Adorei!"

E levei um amargurado: "Que urso cabeçudo".

Hummm..que legal!

Então levei minha mãe para almoçar fora.

Ela parecia apreciar o prato e o passeio.

Foi quando uma lembrança a fez dizer: " Aquele restaurante que sua irmã me levou era super chique! Tinha umas toalhas de seda bonitas!"

Daí eu olhei para a mesinha de marmóre da praça de alimentação do shopping e pensei: " É realmente, aqui não tem toalha bonita, o mármore é vagabundo e a mesa está engordurada e com um pouco de mostarda seca."


A Sôfia, minha rata de estimação, não quer mais sair da casinha dela. A última vez que fui brincar na gaiolinha, segurei entre as grades um amendoin que parecia saboroso. A SÔfia veio correndo e dentou logo o meu dedo.
Notei ela tentando dizer : "Me deixa em paz! Não quero amendoin. Ninguém está afim de ficar com você! Vai dormir!!!"

Resolvi ouvir minha rata ou bem provável a minha conciência.

Demorei para pegar no sono, mas dormiiiii muito!

Foi ótimo.

Acho que entre todas as pessoas, esta semana resolvi ficar comigo. Assistir filme comigo, fazer sexo comigo, beber e comer porcarias, trabalhar comigo e por fim no Domingo sair para almoçar comigo na mesa engordurada que eu escolher.


quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Um-pouco-muito-mais.


No instante em que o barco (que é a vida) chega ao porto e parece estável, logo uma tempestade o derruba.
É como uma brincadeira de criança que senta á beira da praia e brinca com balde e pás coloridas. Monta castelinhos. E quando as janelas se formam, parece finalmente terminado.
Daí vem a onda e derruba tudo sem avisar!


Eu sou a criancinha! Que chora inconsolada por algo ter dado errado!


Só que na idade que estou, não posso mais esperar que meu pai venha e me diga que devo sentar mais ao fundo para poder construir o meu castelo.


Agora eu já tenho que imaginar o que vai acontecer lá na frente se tomada 'tal' decisão.


Sendo bem franca, ás vezes não sei o que fazer. Acho até que nunca sei!


A minha vida toda me vi levando as coisas como o vento.


Simplesmente fluindo entre os dedos sem que precisasse parar para decidir o sentido das minhas escolhas.


E foi aí que percebi que me atrasei um pouco-muito.


Um pouco mais do que devia. Um pouco-muito-mais do que devia.


Ou muito mais do que o pouco que devia.


Ando correndo, tropeçando, peneirando a areia para tirar as pedras do caminho e procurando me ancorar em um porto tranquilo.


Ando andando com pesar. Pesada, impossibilitada de andar sem freio.

Ajeito o tempo todo o 'tempo perdido'.
Devia ajeitar o tempo no tempo que posso, mas não posso perder tempo!


Então levo a vida em uma tempestade apressada, segurando as velas inquietas.



E sem saber outro caminho, continuo a seguir o vento.

Deixo pra pensar depois, pois temo o mar turbulento!